Vim ver você

Doze de dezembro, 7:30h. O alarme toca. Meu mau-humor matinal permite que eu faça as coisas no automático: abrir os olhos, comer, colocar uma roupa que eu gosto, sair. No carro, vou me dando conta de tudo o que o dia promete. Além de ser meu aniversário, algo que prezo muito, pois aprendi a acreditar que as energias que vivenciamos nesse dia se estenderão por todo o novo ciclo, algo diferente vai acontecer. 

Coloco músicas que eu gosto para tocar, aquelas especiais, que nos inspiram. Saindo da Fernando Nobre para a estrada à esquerda, uma especial em particular começa a tocar. Fico com os olhos marejados e uma lágrima escorre. Por mais piegas que isso pareça – e seja – é um tipo de emoção que me agrada. Ponho essa música no repeat. E de novo. Estaciono o carro na frente do Viverzão e entro pelo portão de cima. Antes, tinha parado para comprar um balão de gás hélio para recepcionar famílias e estudantes

. Por que o balão? Porque eu gosto, simples assim. Acho que eles têm um Q de poético. Vou tatuar um algum dia. 

Descendo o caminho de terra, avisto de longe os primeiros sorrisos. A emoção volta com um misto de embrulho no estômago. Lembro do quão difícil 2020 foi e o quanto esse ano nos privou de abraços, sorrisos e convivências. Meu primeiro ímpeto: abraçar, daqueles abraços tão fortes que chegam a confundir quem é quem. Meu segundo ímpeto, no entanto, é parar: “lembre-se do protocolo”. Ele foi amplamente – e exaustivamente – discutido, exatamente como deveria ser, enquanto preparávamos esse evento. Manter o distanciamento seguro, não tirar a máscara, usar álcool em gel. Por mais que seja extremamente necessário e estivesse presente durante todo o ano, em alguns momentos é mais difícil cumpri-lo. Mas o fizemos, eu e todos que ali estavam.

A conversa começa tímida, mas vai ganhando força: os sorrisos iniciais vão se transformando em assunto e logo parece que não ficamos distantes por tanto tempo, tamanho o carinho que este grupo de pessoas tem uns pelos outros. O sol começa a se intensificar e procuramos uma sombra. Aos poucos, saímos do meio do caminho e vamos em direção ao Viverzinho. “Não se esqueça do protocolo!”. Mais olhares conhecidos aparecem. Mais sorrisos largos. Mais carros passando com estudantes e famílias. Penso em quão especial essa profissão é: estar presente na vida de pessoas completas, mas ainda em construção; entrar, de alguma forma, na rotina de várias casas diferentes; ensinar e aprender; amparar e ser amparado; brigar e ser confrontado, enfim, crescer junto, cada um no seu momento.

Os desejos de parabéns e feliz aniversário se mesclam com os “ois” e que vão aparecendo de dentro dos veículos. Alguns estudantes fazem o trajeto a pé, mas ainda dentro do combinado: “o protocolo!”. Muitas famílias aparecem, algumas tínhamos certeza que estariam lá, outras, nos surpreendem. Cada estudante que vemos é um carinho que recebemos e ofertamos. Cada desejo de que o próximo ano seja melhor é um fragmento de esperança que se acende. Cada agradecimento que ouvimos é um suspiro de alívio de que nosso gigantesco trabalho encontrou os trilhos certos, ou, ao menos, chegou bem perto disso. E o sentimento, mútuo, creio eu, de gratidão se espalha pelo ambiente.

A #VimVerVoce aparece nas mídias digitais. Obviamente não é uma daquelas que estão no topo dos assuntos mais comentados – as toptrends -, mas para gente, ela está no topo de importância como um símbolo de tudo o que estávamos vivendo ali. 

No fim, uma foto; com distanciamento, sem abraços físicos, mas cheio de contato humano. Um contato que aprendemos a estabelecer. Ainda não sabemos o que 2021 tem programado para gente, mas desta vez não seremos pegos tão de surpresa e, definitivamente, teremos a certeza de que não estamos solitários. Talvez sozinhos em nossas casas, mas certamente não solitários.

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